sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Para aprenderle







Para saber de amor, para aprenderle,
haber estado solo es necesario...

Jaime Gil de Biedma


pindaro

Como una fruta





Ha venido tu lengua; está en mi boca
como una fruta en la melancolía...


António Gamoneda


pindaro

Viagem



A terra leva-nos por terra;
mas tu, mar,
levas-nos pelo céu.


Juan Ramon Jimenez


pindaro

Os meandros do espírito




L'enfer est trop petit pour tout le monde.
Claire de Lamirande


pindaro

Meu íntimo contraste







Por teu sorriso anônimo, discreto,
(O meu país é um reino sossegado...)

Pela ausência da carne em teu afeto,
Obrigado!

Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,
Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!

Por não passar um dia em que eu não diga
— Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga...
Obrigado!

E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intato que salvaste,
Obrigado! Obrigado! Obrigado!


Pedro Homem de Mello

pindaro

Penhor de guarda





Acalmei do poema das cinco da madrugada
Nas sílabas de furor de que te deixei toucada.
Agora espero-te: Vens
Por vinte e quatro horas de cravos de Nice, amor no aroma,
Intervalando as tuas Carnes Verdes,
Monte Escuro,
De mãos nas mãos no largo laço aéreo,
Meu focinho de nada,
Por nome: a Pérola de cultura do mistério.

À espera tens uma corrente chic
Como a cadela “Pura”
- Ah! essa, chic não ! –
Uma e outra porém para que fique
à argola a orelha de ambas,
Penhor de guarda à vinha viva
Do rabinho entre as pernas de ternura
E beijos de saliva

Como a cadela “Pura”.


Vitorino Nemésio

pindaro

Sem disfarce





Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!



José Régio


pindaro

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Séduction






La meilleure séduction est de n'en employer aucune.
Charles Joseph, Prince de Ligne


Pindaro

Ao pé do murmúrio do mar






Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
A ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.


Traduzido de Edgard Allan Poe, por Fernando Pessoa


Pindaro

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Lighthouses






Books are lighthouses erected in the great sea of time
Edwin P. Whipple


pindaro

Une fête




Le premier mérite d'un tableau est d'être une fête pour l'oeil

Eugène Delacroix



Pindaro

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Mais alto



Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser àguia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Florbela Espanca

pindaro

Vozes do mar




Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias?Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz,ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!


Florbela Espanca

pindaro

Comme des personnages






Il est très difficile, quand on vit dans la familiarité bourrue de la mer, de ne point regarder le vent comme quelqu'un et les rochers comme des personnages.
Victor Hugo


pindaro

A nudez das almas plenas















Noite. Fundura. A treva
E mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...


Pedro Homem de Mello

pindaro

Sans routes





La mer est sans routes, la mer est sans explications.
Alessandro Baricco

pindaro

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Estar preso por vontade





Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.


Luís Vaz de Camões

pindaro

A colher algas

Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.


Ruy Cinatti

pindaro

A esquina do acaso
















Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma idéia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior

Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita. A noite! Se fosse noite. . .
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentido
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,

Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia. Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque à vida dura

E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.


Ruy Cinatti


pindaro

Un mystère




Un bateau est une beauté et un mystère quelque soit l'endroit où on le voit.
Harriet Beecher Stowe


pindaro

D´y toucher



Le flirt est l'art de s'adonner à l'amour sans avoir l'air d'y toucher et d'y toucher sans avoir l'air.
Decoly

pindaro

Le sel et le sens





Naviguer à vue, c'est retrouver le sel et le sens de la vie.
Kheira Chakor


Pindaro

domingo, fevereiro 04, 2007

Dans l´espace

Noire mort tu es mon pain
Je te mange dans le cœur
L'épouvante est ma douceur
La folie est dans ma main
Douceur de l'eau
Rage du vent
Eclat de rire de l'étoile
Matinée de beau soleil
Il n'est rien que je ne rêve
Plus loin que les larmes de mort
Plus haut que le fond du ciel
Dans l'espace de tes seins...


Georges Bataille


Pindaro

Swim the sea




Live in the sunshine, swim the sea, drink the wild air…
Ralph Waldo Emerson


pindaro

Les yeux d´Elsa



















Tes yeux sont si profonds qu'en me penchant pour boire
J'ai vu tous les soleils y venir se mirer
S'y jeter à mourir tous les désespérés
Tes yeux sont si profonds que j'y perds la mémoire

À l'ombre des oiseaux c'est l'océan troublé
Puis le beau temps soudain se lève et tes yeux changent
L'été taille la nue au tablier des anges
Le ciel n'est jamais bleu comme il l'est sur les blés

Les vents chassent en vain les chagrins de l'azur
Tes yeux plus clairs que lui lorsqu'une larme y luit
Tes yeux rendent jaloux le ciel d'après la pluie
Le verre n'est jamais si bleu qu'à sa brisure

Mère des Sept douleurs ô lumière mouillée
Sept glaives ont percé le prisme des couleurs
Le jour est plus poignant qui point entre les pleurs
L'iris troué de noir plus bleu d'être endeuillé

Tes yeux dans le malheur ouvrent la double brèche
Par où se reproduit le miracle des Rois
Lorsque le coeur battant ils virent tous les trois
Le manteau de Marie accroché dans la crèche

Une bouche suffit au mois de Mai des mots
Pour toutes les chansons et pour tous les hélas
Trop peu d'un firmament pour des millions d'astres
Il leur fallait tes yeux et leurs secrets gémeaux

L'enfant accaparé par les belles images
Écarquille les siens moins démesurément
Quand tu fais les grands yeux je ne sais si tu mens
On dirait que l'averse ouvre des fleurs sauvages

Cachent-ils des éclairs dans cette lavande où
Des insectes défont leurs amours violentes
Je suis pris au filet des étoiles filantes
Comme un marin qui meurt en mer en plein mois d'août

J'ai retiré ce radium de la pechblende
Et j'ai brûlé mes doigts à ce feu défendu
Ô paradis cent fois retrouvé reperdu
Tes yeux sont mon Pérou ma Golconde mes Indes

Il advint qu'un beau soir l'univers se brisa
Sur des récifs que les naufrageurs enflammèrent
Moi je voyais briller au-dessus de la mer
Les yeux d'Elsa les yeux d'Elsa les yeux d'Elsa


Louis Aragon



PINDARO

À procura da alma



... em que vemos não só o que faz uma pessoa, mas também o que nunca se pode ver: o que essa pessoa sente e pensa.

Rudolph Thome


Pindaro

Ses effets





Si on juge de l'amour par la plupart de ses effets?
Il ressemble plus a de la haine qu'a l'amitié.
La Rochefoucauld


pindaro

sábado, fevereiro 03, 2007

Démons personnels





Platon écrivait que nous voyons sur le visage de l´être aimé l´image du dieu qui préside à notre destinée. Il convient d´ajouter que nous y percevons aussi nos démons personnels.



Solino

Da água vem a alma






O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida


Ruy Belo


Pindaro

La courbe


La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur.

Paul Eluard



pindaro

Simplicité






Il faut laisser aux gens qu'on aime le droit de disparaître.
Veronique Ovalde



Pindaro

Le projet




Aimer est, dans son essence, le projet de se faire aimer.
Jean-Paul Sartre


pindaro

Le rêve






La vie est un sommeil, l'amour en est le rêve, et vous aurez vécu si vous avez aimé.

Alfred de Musset


Pindaro

Savourer




Aimer, c'est savourer, au bras d'un être cher,
La quantité de ciel que Dieu mit dans la chair...

Victor Hugo

pindaro

C´est le secret


Ce qu'il y a de beau dans un mystère, c'est le secret qu'il contient et non la vérité qu'il cache.
Eric-Emmanuel Schmitt
pindaro

Un souffle


La vie est un souffle énigmatique et ce qui en résulte ne peut être qu'un souffle énigmatique.
Jean Arp

pindaro

Eterno





Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.




Cecília Meireles

pindaro

Religiosa e casta






Num impudor de estátua ou de vencida,
coxas abertas, sem defesa... nua
ante a minha vigília, a noite, e a lua,
ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,
meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...
enquanto o luar a numba, inerte, gasta
da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...
e eu pouso a boca, religiosa e casta,
sobre a flor esmagada do seu sexo.


José Régio

pindaro

Com o desprendimento




Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant'Anna



pindaro

Le baiser d`or du bois





Dans la feuillée écrin vert taché d'or
Dans la feuillée incertaine et fleurie
De fleurs splendides où le baiser dort,
Vif et crevant l'exquise broderie

Un faune effaré montre ses deux yeux
Et mort les fleurs rouges de ses dents blanches.
Brunie et sanglante ainsi qu'un vin vieux
Sa lèvre éclate rires sous les branches.

Et quand il a fui -tel qu'un écureuil-
Son rire tremble encore à chaque feuille
Et l'on voit épeuré par un bouvreuil
Le Baiser d'or du Bois, qui se receuille.

A. Rimbaud


pindaro

Ne le déchirez



Voici des fruits, des fleurs, des feuilles et des branches
Et puis voici mon coeur qui ne bat que pour vous.
Ne le déchirez pas avec vos deux mains blanches
Et qu'à vos yeux si beaux l'humble présent soit doux.

Paul Verlaine


pindaro

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

À deux




L'amour est un égoïsme à deux

Madame de Staël



Pindaro

Atravessados






Todos estão sós no coração da terra, atravessados por um raio de sol: e de repente é noite.
Salvatore Quasimodo



pindaro

É redundância


Nestes casos, a intercomunicação lúbrica é tão natural como a do calor ou da electricidade. Não é que tudo no mundo é molecular? Um sexto sentido, particularmente apreensor nas mulheres, as avisa de quem as cobiça. Compreende-se que, ordenadas como receptáculo, seja mais desenvolvida nelas a faculdade de detecção. O homem pode ser amado e não fazer reparo. Quando se ama uma mulher e se está em contacto com ela, pode partir-se do princípio que está ciente. Qualquer declaração de amor é redundância.
Aquilino Ribeiro


pindaro

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Un antre obscur





Il est un antre obscur où vont s'isoler les amours pour nous séduire avec plus d'énergie.
Marquis de Sade


pindaro

Le moins seul




Seul au milieu de l'Atlantique,
Entre les courants et les vents,
Un navigateur solitaire
Est l'homme le moins seul de la terre.
Gilbert Bécaud


pindaro

Entroncamento das almas
















Le port de plaisance est un lieu conçu pour que les navigateurs qui ne prennent pas la mer puissent rencontrer des vacanciers qui n'ont pas de bateau.

Philippe Bouvard




pindaro

Dans la solitude



L'élégance est de se comporter dans la solitude comme en société.
Sylvain Tesson


pindaro

Anjo és tu



Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c´roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d`amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A é chama vivaz e é bela,
Mas luz não têm. - Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes- e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi? ... - Lágrimas? - Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?


Almeida Garret


Pindaro

Mania de você





Meu bem, você me dá água na boca
Vestindo fantasias, tirando a roupa
Molhada de suor de tanto a gente se beijar
De tanto imaginar loucuras

A gente faz amor por telepatia
No chão, no mar, na Lua, na melodia...
Mania de você, de tanto a gente se beijar,
De tanto imaginar loucuras...

Nada melhor do que não fazer nada
Só pra deitar e rolar com você...
Nada melhor do que não fazer nada
Só pra deitar e rolar com você...


Rita Lee


pindaro