quarta-feira, março 15, 2006

Como barcos no mar


Cantigas de portugueses
São como barcos no mar -
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.



Fernando Pessoa


pindaro

Lua Cheia


A linguagem tende para a prosa, mas não chega lá.
Eugenio Montale


pindaro

segunda-feira, março 13, 2006

Imperador da língua portuguesa



O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia, e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.



Fernando Pessoa


pindaro

quarta-feira, março 08, 2006

Depois do mais que me dera

Vem aí a Primavera
disse-me hoje a tua boca
depois do mais que me dera
o que vem é coisa pouca

Olha o Verão que já não tarda
disse-me à tarde o teu peito
por mais frutos que ele traga
não há nenhum tão perfeito

Ouço os passos do Outono
dizem-me à noite os teus braços
o que mais ambiciono
é ouvir só os teus passos

O Inverno há-de chegar
diz-me sempre a tua mão
quanto mais a mão esfriar
mais calor no coração

E dia a dia, por nós
passam as quatro estações
têrm sempre a tua voz
eu respondo-lhes depois


David Mourão Ferreira


pindaro

A Primavera é um chicote



Canção primaveril

Anda no ar a excitação
de seios subito exibidos
à torva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!

Ou é um deus, oi foi a Morte
que nos vestiu este torpor;
e a Primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!

Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta caricia;
apenas nervos os pescoços...
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha.


David Mourão-Ferreira


pindaro

terça-feira, março 07, 2006

A vários ângulos


"Fumar ao espelho"

(...)
Não, nisto de alguém se interrogar ao espelho, olhos nos olhos, é consoante. Tem muitos ângulos - e tu estás aí, que não me deixas mentir. Vários ângulos. Há quem procure, santa inocência, fazer um discurso de silêncio capaz de estilhaçar o vidro e há quem espere receber, por reflexo da própria imagem, algum calor animal que desconhece. Seja como for, o que dói, e assusta, e é triste e desastradamente cómico neste exercício, é o pleonasmo de si mesma em que a pessoa se transforma. Repete-se. Se bem que com feroz independência (todo o seu esforço é esse) repete-se em imagens controversas que a possam explicar.
(...)
Tudo isto, já te disse, tem de ser encarado a vários ângulos. Sempre a vários ângulos, não te esqueças, porque, segundo alguns, os personagens deste tipo são de visagem errante. Como toda a gente? Como toda a gente, possível. Só que esse que tens diante de ti nunca na vida soube administrar a sua ima em pública, como se pode depreender logo à primeira abordagem. Porquê, não se sabe; as razões podem ser muitas. Pudor, impaciência, falta de traquejo, sei lá. Há também a independência, a independência... demasiado impeditiva, sempre foi, mas por essa ou por outras razões, a verdade é que esse talento nunca ele teve. E não se julgue que a lacuna não é grave porque a imagem de marca que os corretores das Letras e os lobbies da Opinião põem a circular no mercado a cotações de estarrecer. Ah, os lobbies, ah, os lobbies. Ah, perfumadas sacristias onde o livro em branco, antes de ser livro, já foi condenado ou marcado com uma pétala seca na página da eternidade.
(...)
Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita.
E com esta me despeço, adeus até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia.
Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês?


Cardoso Pires por Cardoso Pires
[ in CITI ]


pindaro

segunda-feira, março 06, 2006

Bugatti verde


“Viajante do mar cavalgando ventos
deixando um rasto de
pássaros entre as nuvens”

Li Bai













Cheirava a cedro.

Com garbo e greta vagueava na ambivalência ou no Grand Hôtel de Monte-Carlo, sussurrando leves profunduras ao Great Gasby e à Dolores Del Rio, por entre bolhas de champagne e outras maciezas.

Desassossegando os que amava e pintava, era um tableau vivant com nome de pseudónimo, e uma baronesa de barão húngaro com vestígios de silêncio na lâmina.

D´Annunzio definiu-a como a mulher de ouro, a ela, a imprecisa como uma esmeralda, a ela, a de unhas vermelho-sangue, sumptuosamente ouro-arruivada.

Era um ser alto e esguio, mas com talhe, com sinuosidades consumadas nos quatro ventos que abriam as saias.

Diva dos roaring twenties e viajante do Normandie, deixou Nana de Herrera nua demais, e viu o conde Furstenberg Herdringen como um Mefistófeles saído da neblina da Berlim de Klaus Mann.

Para ela a transgressão era só um debrum, e, perversa como Ingres, era uma ávida predadora da sensualidade bidireccional, de veludo e carne nua.

Onde acabava o vestido e começava o corpo?

No altar dos seus deuses só um senhoreava – o estilo.

Baronesa Tamara de Lempicka-Kuffner.

La belle polonaise.





leonardo

domingo, março 05, 2006

Era de outra natureza

«Receio que ele me quis dar uma

noite igual à que eu lhe dei; mas,

se foi por isso que o fez, soube

vingar-se mal, pois esta noite foi

apenas a terça parte da sua; além

disso, o frio era de outra

natureza»


(Boccacio in Decameron)


pindaro

Do azul profundo

"Vejo surgir o azul do azul profundo"
f pessoa

Escutai o mar

O mar geme ao longe e grita na solidão

A minha voz fiel como a sombra

Quer ser finalmente a sombra da vida

Quer ser, ó mar vivo, infiel como tu

Guillaume Apollinaire

pindaro

Demasiado cedo



«Vem ter comigo», disse ele, e esqueceu

«Ama-me»: mas o amor faz-nos medo

preferimos partir e voar para a Lua

Do que dizer as palavras certas demasiado cedo

Louis Phillipe

(Yuri Gagarin)

pindaro

Às vezes


Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.


Carlos Drummond de Andrade


pindaro

sábado, março 04, 2006

Barco abandonado


A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado ?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.


Fernando Pessoa

pindaro

sexta-feira, março 03, 2006

Com palavra santo e senha



Naquele trilho secreto,
Com palavra santo e senha.
Eu fui língua e tu dialecto.
Eu fui lume, tu foste lenha.
Fomos guerras e alianças,
Tratados de paz e passangas.
Fomos sardas, pele e tranças,
Popeline, seda e ganga.
Dessa vez tu não cumpriste,
E faltaste ao prometido.
Eu fiquei sentido e triste.
Olha que isso não se faz.
Disseste se eu fosse audaz,
Tu tiravas o vestido,
E o prometido é devido.
Rompi eu as minhas calças.
Esfolei mãos e joelhos.
E tu reduziste o acordo,
A um montão de cacos velhos.
Eu que vinha de tão longe,
Do outro lado da rua.
Fazia o que tu quizesses,
Só para te poder ver nua.
Quero já os almanaques.
Do Fantasma e do Patinhas,
Os Falcões e os Mandrakes.
Tão cedo não terás novas minhas.
Dessa vez tu não cumpriste,
E faltaste ao prometido.
Eu fiquei sentido e triste.
Olha que isso não se faz.
Disseste se eu fosse audaz,
Tu tiravas o vestido,
E o prometido é devido.



carlos tê


pindaro

Sem ter de quê







Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?


Fernando Pessoa

pindaro

Nem falar dos seus motivos





Garras dos sentidos


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

paraísos proibidos,
contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.



Agustina Bessa-Luís


pindaro

quinta-feira, março 02, 2006

Punhal de prata



Guitarra

Punhal de prata já eras,
punhal de prata!
nem foste tu que fizeste
a minha mão insensata.
Vi-te brilhar entre as pedras,
punhal de prata!
- no cabo flores abertas,
no gume, a medida exata,
exata, a medida certa,
punhal de prata,
para atravessar-me o peito
com uma letra e uma data.
A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata



cecília meireles



pindaro

Pede o desejo, Dama, que vos veja


Pede o desejo, Dama, que vos veja,
não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa a qual natural seja
que não queira perpétuo seu estado;
não quer logo o desejo o desejado,
porque não falte nunca onde sobeja.

Mas este puro afeito em mim se dana;
que, como a grave pedra tem por arte
o centro desejar da natureza,

assi o pensamento (pola parte que
vai tomar de mim, terreste [e] humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.


Luis de Camões



pindaro

Andanças



Livro de Horas


Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso

O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!



Miguel Torga


pindaro

A cor do lume






Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.



Eugénio de Andrade





pindaro

quarta-feira, março 01, 2006

Posto que é chama


Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao meu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


pindaro