quarta-feira, julho 22, 2009

Uma vida submarina

























... gostava que os seus modelos falassem constantemente, desde que se conservassem imóveis. Isso dava às suas expressões uma vida submarina e enriquecia os seus olhares com interpretações inconscientes dos seus pensamentos - a verdadeira beleza da carne...


Lawrence Durrel

(Baltazar)


pindaro

Friável diamante















Se o ciúme nasce do intenso amor, quem não sente ciúmes pela amada não é amante, ou ama de coração ligeiro, de modo que se sabe de amantes os quais, temendo que o seu amor se atenue, o alimentam procurando a todo o custo razões de ciúme.
Portanto o ciumento (que porém quer ou queria a amada casta e fiel) não quer nem pode pensá-la senão como digna de ciúme, e portanto culpada de traição, atiçando assim no sofrimento presente o prazer do amor ausente. Até porque pensar em nós que possuímos a amada longe - bem sabendo que não é verdade - não nos pode tornar tão vico o pensamento dela, do seu calor, dos seus rubores, do seu perfume, como o pensar que desses mesmos dons esteja afinal a gozar um Outro: enquanto da nossa ausência estamos seguros, da presença daquele inimigo estamos, se não certos, pelo menos não necessariamente inseguros.
O contacto amoroso, que o ciumento imagina, é o único modo em que pode representar-se com verosimilhança um conúbio de outrem que, se não indubitável, é pelo menos possível, enquanto o seu próprio é impossível.
Assim o ciumento não é capaz, nem tem vontade, de imaginar o oposto do que teme, aliás só pode obter o prazer ampliando a sua própria dor, e sofrer pelo ampliado prazer de que se sabe excluído. Os prazeres do amor são males que se fazem desejar, onde coincidem a doçura e o martírio, e o amor é involuntária insânia, paraíso infernal e inferno celeste - em resumo, concórdia de ambicionados contrários, riso doloroso e friável diamante.


Umberto Eco


pindaro

terça-feira, julho 21, 2009

Cosa mentale


















Nesse theatrum mundi os homens e as mulheres perseguem-se mutuamente, tentando conquistar um sentido de centralidade e escapar ao aborrecido anonimato da sua condição social pela ilusão de um momento sexual privilegiado.

Maria Nencová Banerjee


pindaro

Lusco-fusco






Primeiro as cores.
Depois os humanos.
É geralmente assim que eu vejo as coisas.
Ou, pelo menos, tento.

Marcus Zusak


pindaro

O que há de melhor

























Os primeiros sentimentos e os segundos pensamentos são o que há de melhor nos dois géneros.

Louis Gabriel Ambroise de Bonald


pindaro

A conjura

















Pour qu'un amour soit inoubliable, il faut que les hasards s'y rejoignent dès le premier instant.

Milan Kundera



Pindaro

Trouxeste a frase

























Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta, e ela deseja Johann, é o seu lugar cénico que se deseja,
os gestos do texto que descreve no espaço
e chamar-lhe
precioso companheiro;
de mim, direi que fui uma vez enviado,
trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita.

Maria Gabriela Llansol


pindaro

segunda-feira, julho 20, 2009

Cravação fechada


A esmeralda é uma pedra frágil que se quebra com facilidade, como a fé.

Catarina de Médicis

















A regra só pode ser esta:
os lapidários lapidarão e os ourives engastarão.

E elas, as de cabelo asa de corvo e olhos pretos, usem, de primazia, na cercadura dos brincos a prata branca.

Com vistas para o realce.

Ponham, por cima, camisa aberta e cor de canela, que entraves raianos não molham beijos,

sabendo que reais são os méis e adulações no estreito das embocaduras, maiormente da do fremente limo voraz.

E, por cima de tudo, a destapar as pernas quase todas, que a seda preta, ávida de regard, mostre a sua solidão furtiva entre a saia e a carne nua.

Marcando territórios, os lobos florescem.


Doutor Lívio

No breve espaço























O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar,
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar


Carlos Drummond de Andrade


pindaro

Em linhas doidas
























A dança chama-se vida? O que me seduz é este par vertiginoso e os seus movimentos em linhas doidas, agitadas. A vida, esse jogo repetitivo de sentimentos vulgares, não me interessa.


Teixeira de Pascoaes

pindaro

Em geral






















Ao longo da vida, em geral, os apetites mais nobres são os que surgem apenas depois de nos termos decidido a comer, o que só conseguimos compreender depois de termos comido...
Glenway Wescott

pindaro

Essa espécie de surpresa























Os encantos encontram-se muito mais no espírito do que no rosto, porque um belo rosto mostra-se logo e não esconde quase nada, mas o espírito apenas se mostra gradualmente, quando quer e do modo que quer; pode esconder-se para surgir de novo e proporcionar essa espécie de surpresa que constitui os encantos.


Baron de Montesquieu


Pindaro

Bilhetando Hilária





















Ávida Hilária de sobrancelha sexy, polpuda e licorosa que és. Por onde anda o sabor do beijo sumarento, que o quero?


Solino

domingo, julho 19, 2009

Inmóvil pero danzante
























Inmóvil en la luz, pero danzante,
tu movimiento a la quietud que cría
en la cima del vértigo se alía
deteniendo, no al vuelo, sí al instante.

Luz que no se derrama, ya diamante,
fija en la rotación del mediodía,
sol que no se consume ni se enfría
de cenizas y llama equidistante.

Tu salto es un segundo congelado
que ni apresura el tiempo ni lo mata:
preso en su movimiento ensimismado


tu cuerpo de sí mismo se desata
y cae y se dispersa tu blancura
y vuelves a ser agua y tierra obscura.

Del verdecido júbilo del cielo
luces recobras que la luna pierde
porque la luz de sí misma recuerde
relámpagos y otoños en tu pelo.

El viento bebe viento en su revuelo,
mueve las hojas y su lluvia verde
moja tus hombros, tus espaldas muerde
y te denuda y quema y vuelve yelo.

Dos barcos de velamen desplegado
tus dos pechos. Tu espalda es un torrente.
Tu vientre es un jardín petrificado.

Es otoño en tu nuca: sol y bruma.
Bajo del verde cielo adolescente


Octavio Paz

pindaro

sábado, julho 18, 2009

O efeito romanesco






















...e assim perderia todo o efeito romanesco: onde, sim, se finge contar coisas verdadeiras, mas não se deve dizer a sério que se finge.


Umberto Eco

pindaro

Uma benção estranha

























Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

clarice lispector


pindaro

sexta-feira, julho 17, 2009

Trazida pela maré


























... tentaram aninhaçá-la como uma gansa selvagem, mas ela estava unicamente sujeita às marés gravitacionais das estações, voando para norte ou para sul conforme o sangue lhe pedia, evitando os costumes tranquilos e os homens estáveis. Em lugares solitários encontrei-a sempre, trazida pela maré, solitária, perfeita, minha amante e minha grande amiga.
À noite jantávamos à luz de uma única vela, com azeitonas e vinho gelado.

Lawrence Durrel
(Quinx ou a historia do estripador)

pindaro

Pela luz do entendimento
























Nunca será perfeito galã o que servir por destino ou afeição, mas sim o que se prepare com o espírito. Vai muito o eleger pela luz do entendimento ou o seguir pelas trevas da loucura.

D.Francisco de Portugal

Arte de Galanteria


pindaro

o sal, o sol, o sul




















Ó portugal, se fosses só três sílabas,
Linda vista para o mar,
(...)
Se fosses só o sal, o sol, o sul,

Alexandre O´Neill


pindaro

quinta-feira, julho 16, 2009

Uma fruta feminina

























A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.
Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é
uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.


D.H.Lawrence

(tr. Herberto Helder)


pindaro