segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Aquele mover de olhos excelente







Aquele mover de olhos excelente,
aquele vivo espírito inflamado
do cristalino rosto transparente;

aquele gesto imoto e repousado,
que, estando na alma propriamente escrito,
não pode ser em verso trasladado;

aquele parecer, que é infinito
para se compreender de engenho humano,
o qual ofendo enquanto tenho dito,

me inflama o coração dum doce engano.
me enleva e engrandece a fantasia,
que não vi maior glória que meu dano.

Oh, bem-aventurado seja o dia
em que tomei tão doce pensamento,
que de todos os outros me desvia!

E bem-aventurado o sofrimento
que soube ser capaz de tanta pena,
vendo que o foi da causa o entendimento!



Luís de Camões


pindaro

Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande
amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma
só mulher; pois ser de muitas, poxa ! é de colher ... - não tem
nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se
cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for. Há que
fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada
e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.


Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como
o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para
iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer
que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre
preparado para chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da
verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande
amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da
liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut, além de fiel, ser bem
conhecedor de arte culinária e de jud^0 - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas
bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É
preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada
e sua viúva t ambém, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no
florista - muito mais, muito mais que na modista ! - para aprazer ao
grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo. É de
amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo
conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões,
sopinhas, molhos, estrogonofes - comidinhas para depois do amor. E
o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha
com uma rica e gostsoa farofinha, para o seu grande amor ?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver
sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de
dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também
com a mente, pois qualquer "baixo"seu, a amada sente - e esfria um
pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador
sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande
amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se
arrisque !) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com
o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e
desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um
grande amor.


Vinicius de Moraes

Me retece e configura


Este amor em meadas e triciclos
que nunca se divide, confluindo
e torna noite este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.

Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.

Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.

Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.


Carlos Nejar


pindaro

De um calmo amor prestante


Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinicius de Moraes


pindaro

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Pastor e nauta


Dez chamamentos ao amigo


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.


Hida Hist


pindaro

Pelos séculos adiante

After charming Ludovico Ariosto with her legendary beauty, Lucrezia won herself a role in the author's epic poem "Orlando Furioso" before securing the love of Pietro Bembo, another great Renaissance poet who sang the praises of the duchess:

'If during this period you chance to find your ears are ringing it will be because I am ... writing pages about you that will still be read a century after we are gone.'


pindaro

O amor fino

O amor fino não há-de ter "porquê" nem "para quê".
Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo.
Pois como há-de ser o amor para ser fino?
Amo porque amo e para amar.

Padre António Vieira



pindaro

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A própria máscara

"Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário do humano."
clarice lispector









Platão escrevia que víamos no rosto de quem amamos a imagem do deus que nos governa.

Convém acrescentar que também nele apercebemos os nossos demónios pessoais...




solino

Impessoal


Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real

Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O movimento pendular do tempo


"No vinho estão a verdade, a vida e a morte. No vinho estão a aurora e o crepúsculo, a juventude e a transitoriedade. No vinho está o movimento pendular do tempo. No vinho se espelha a vida."
Roland Betsch


pindaro

Nas ancas do prometer



A um fidalgo que lhe Tardará com uma Camisa que lhe Prometera

Quem no mundo quisera ser
Havido por singular,
Para mais se engrandecer,
Há-de trazer sempre o dar
Nas ancas do prometer.
E já que Vossa Mercê
Largueza tem por divisa,
Como todo mundo vê,
Há mister que tanto dê,
Que venha a dar a camisa.



LuisVaz de Camões


pindaro

Donde toda a tristeza se desterra



A formosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros
Das nuvens pelo ar a branda guerra.

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos ofrece ,
Me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.



Luís de Camões


pindaro

Não trocaria




Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso;
Quem o contrário diz não seja crido:
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens e inda aos deuses odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.



Luis Vaz de Camões


pindaro

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Voici des fleurs




Voici des fleurs, des fruits, des feuilles et des branches
Et puis voici mon cœur qui ne bat que pour vous
Ne le déchirez pas avec vos deux mains blanches
Et qu'à vos yeux si beaux, l'humble présent soit doux

Voici des fleurs, des fruits, des feuilles et des branches
La gare Montparnasse ô, vous souvenez-vous
Votre cœur était pur, votre robe était blanche
Votre amour était clair, votre corps était doux

Voici des fleurs, des fruits, des feuilles et des branches
Et voici l'escalier des premiers rendez-vous
Et mon baiser soudain sur votre peau si blanche
Vous si calme déjà, et moi déjà si fou

Voici des fleurs, des fruits, des feuilles et des branches
Et puis voici ce train qui me fait comme un trou
Et puis voici sa main entre vos deux mains blanches
Et voici son baiser qui hante votre cou

Voici des fleurs, des fruits, des feuilles et des branches
Et puis voici ce train qui s'éloigne sans nous
Je vous crie "Au secours" mais ma voix est si blanche
Et vous me laissez seul au milieu du mois d'Août

Voici des fleurs, des fruits, des feuilles et des branches
Et puis voici la pluie qui coule dans mon cou
Ô, ne l'essuyez pas avec vos deux mains blanches
Et laissez-moi souffrir mon chemin jusqu'au bout

Jusqu'au bout, jusqu'au bout ...



Paul Verlaine


pindaro

Verticalmente




Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.




Mário Cesariny de Vasconcelos



pindaro

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Rumor de tigre

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.



Eugénio de Andrade


pindaro

A barcos e bruma



Procura a maravilha.


Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.



Eugenio de Andrade


pindaro

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

São terras sem ter logar



Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos falla,
Mas que, se escutarmos, calla,
Por ter havido escutar.


E só se, meio adormecido,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ella nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.


São ilhas afortunadas,
São terras sem ter logar
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos dispertando,
Calla a voz, e ha só o mar.


Fernando Pessoa

pindaro

Ponto de ancoragem

"Através da neblina, as instruções conduzem-me a um mundo perdido no tempo e no espaço. De súbito, ele surge, entre realidade, arte e ritual"


Em busca de um ponto de ancoragem, onde brisas e anseios venham confluir, á vista do coral e das praias, desvendando a cerração do enigma e da onda em formação.


Solino

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Rente

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum



Eugénio de Andrade

pindaro