terça-feira, janeiro 23, 2007

Tomai polme a ferver



Tomai-me as ancas fartas dão para égua
e as açucenas que ainda são mamudas.
Dos olhos tomai pranto, é boa rega,
já que a chorar por vós vos dei fartura.

Dos ouvidos, silvos que os ocuparam
tomai que até farelo pus em música.
Calo a farinha. Anjos a trituraram.
De agro celeste, o grão não mói a Musa.

De árduos sentidos que chamais pecados
tomai só os mortais. Dão uma récua.
Dos imortais nem um que são velados
por vapores de alvorada paraclética.

Tomai riso também se quereis folia:
mete rabeca e balho o Sprito Santo.
Nos fúlgidos milagres da pombinha
embuça-se o divino no profano.

Tomai polme a ferver de ilhoa irada,
mesmo o coice que dá depois de morta.
Eu deito fogo para não ser queimada.
Mas serva e cerva sou por trás da porta.

Tomai gestos que são dos sete palmos
e para vermes eu não ponho a rubrica.
De publicar-me em pó estais perdoados.
Devo-me eterna vendida em hasta pública.

Traficantes de peles, à puridade
vos digo: só mentira arrecadais.
Porque tal como o lótus, a verdade
vos dou na comunhão que não tomais.

Natália Correia


pindaro

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Le haut refuge


L'érotisme, ce triomphe du rêve sur la nature, est le haut refuge de l'esprit de poésie, parce qu'il nie l'impossible.
Emmanuelle Arsan


pindaro

As proas giram sozinhas











No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.


Cecília Meireles


pindaro

Soleil de nuit






La fermeture éclair a glissé sur tes reins
Et tout l'orage heureux de ton corps amoureux
Au beau milieu de l'ombre
A éclaté soudain
Et ta robe en tombant sur le parqué ciré
N'a pas fait plus de bruit
Qu'une écorce d'orange tombant sur un tapis
Mais sous nos pieds
Ses petits boutons de nacre craquaient comme des pépins
Sanguine
Joli fruit
La pointe de ton sein
A tracé une nouvelle ligne de chance
Dans le creux de ma main
Sanguine
Joli fruit
Soleil de nuit


Jacques Prévert


pindaro

L` éphémère





Laisse moi me convaincre de l`éphémère qui enchantait hier ses yeux.
René Char


pindaro

Beleza não pensada


Havia nela, sem que o soubesse, a sonoridade dos mistérios, que na sua incessante e confiada inquietude nos enredavam numa toada encantatória, própria dos beijos dados ao lusco-fusco.
Beleza fugaz, não pensada.




Leonardo

Yet being here











That is where they live:
Not here and now, but where all happened once.
This is why they give
An air of baffled absence, trying to be there
Yet being here.

Philip Larkin



pindaro

domingo, janeiro 21, 2007

Lágrimas, iodo e nevoeiro






Ao mar

Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga



píndaro

En érection




La raison, c'est l'intelligence en exercice ; l'imagination c'est l'intelligence en érection.
Victor Hugo


Pindaro

Forever



Alas! must it ever be so?
Do we stand in our own light, wherever we go,
And fight our own shadows forever?

Edward Bulwer-Lytton


pindaro

Melãobuza






Morango maduro
morango maduro
não manga de mim
Espera aí
Quiuinstante não d’amora
Vem cajá
Melãobuza agora
Que eu relanceio por um beijo seu
Amarmelada, maçã do amor
Pequi Umbucado
e vem cáqui o meu coração
Pulsaporti
jatobacana, bombocado de pecado.


Jacira Rodrigues



pindaro

Noches hubo




Noches hubo en que me creí tan seguro de poder olvidarla que voluntariamente la recordaba.
Jorge Luis Borges



Pindaro

O modo de o fazer




Quando vemos uma sombra é porque há uma luz. A sombra é mistério, a luz claridade. A sombra encobre, a luz descobre. Saber o que se deve encobrir e o que se deve descobrir e o tempo e o modo de o fazer - isso é a arte.

Sternberg

Servir-se da distância




Sabe que precisa saber servir-se da distância; as qualidades perdem o seu esmalte se se mostrarem demasiado e a fantasia alcança mais longe que a vista.

Umberto Eco


pindaro

sábado, janeiro 20, 2007

Mar largo



Após haver reconhecido que a vida é breve, a arte vasta, a ocasião instantânea e a experiência incerta...


Solino

Capriccio



Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento.
Adélia Prado


pindaro

Nos démons personnels




Platon écrivait que nous voyons sur le visage de l´être aimé l´image du dieu qui préside à notre destinée. Il convient d´ajouter que nous y percevons aussi nos démons personnels.


Solino

Cúmplices






Nunca quis saber da vida, foi a vida que quis saber de mim. Daí eu dever-lhe alguma fidelidade.
Malcom Lowry


pindaro

Paisagem ousada



Paisagem ousada, como a vêem as videntes em bolas de cristal. Aquele "Dentro" para onde converge o "Fora" das estrelas.

Clarice Lispector


pindaro

Ao anoitecer















Envelhece-se mais devagar ao anoitecer. A morte enrosca-se, faz uma trégua até que de novo amanheça. Sou um homem nocturno, a luz do dia aumenta o conhecimento da minha escassa eternidade.
Malcom Lowry


pindaro