sábado, julho 19, 2008

A arte de perder


















A arte de perder não é nenhum mistério,
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério
(...)
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios e mais um continente.
Tenho saudades deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


Elizabeth Bishop




pindaro

Contentamentos injustos




Até ao fim somos amantes uns dos outros.


Agustina Bessa-Luís


pindaro

sexta-feira, julho 18, 2008

De perdição



O principal egoista é aquele que se desvela em explorar o coração alheio para opulentar o próprio com as deleitações do amor.


Camilo Castelo Branco




pindaro

O vestígio e a aura





O vestígio é a manifestação de uma proximidade, por mais longe que possa estar o ser que o deixou.
A aura é a manifestação de uma lonjura, por mais próximo que possa estar aquilo que a evoca.
Com o vestígio apoderamo-nos da coisa, com a aura é ela que é senhora de nós.

walter benjamin




pindaro

quinta-feira, julho 17, 2008

Chagrin d´amour






Je vous donne un chagrin d'amour. C'est très intéressant, un chagrin d'amour. Pendant que vous souffrirez, vous ne vous ennuierez pas...


Henri Jeanson



pindaro

Escucha


El cuerpo canta;
la sangre aúlla;
la tierra charla;
la mar murmura;
el cielo calla
y el hombre escucha.


Miguel de Unamuno


pindaro

quarta-feira, julho 16, 2008

A imagem





Platão escrevia que víamos no rosto de quem amamos a imagem do deus que nos governa.
Convém acrescentar que também nele apercebemos os nossos demónios pessoais...



solino

Com muita luz lá dentro





Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.



Eugénio de Andrade




pindaro

Sin conocerte
























Si no te conozco, no he vivido; si muero
sin conocerte, no muero, porque no he vivido.

Luis Cernuda



pindaro

terça-feira, julho 15, 2008

As misteriosas maravilhas do verbo navegar





Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te logamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.


Manuel Alegre




pindaro

Ocasionalmente























Ocasionalmente o excesso é divertido. Evita que a moderação se torne um hábito nefasto.

William Somerset Maugham




pindaro

Aberto e descoberto





Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga


píndaro

Privilège




















Naviguer : c'est accepter les contraintes que l'on a choisies. C'est un privilège. La plupart des humains subissent les obligations que la vie leur a imposées.


Eric Tabarly



pindaro

segunda-feira, julho 14, 2008

Tango do covil



Ai, quem me dera ser cantor
Quem dera ser tenor
Quem sabe ter a voz
Igual aos rouxinóis
Igual ao trovador
Que canta os arrebóis
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
Deixa eu cantar tua beleza
Tu és a mais linda princesa
Aqui deste covil

Ai, quem me dera ser doutor
Formado em Salvador
Ter um diploma, anel
E voz de bacharel
Fazer em teu louvor
Discursos a granel
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
Tu és a dama mais formosa
E, ouso dizer, a mais gostosa
Aqui deste covil

Ai, quem me dera ser garçom
Ter um sapato bom
Quem sabe até talvez
Ser um garçom francês
Falar de champinhon
Falar de molho inglês
Pra te dizer gentil
Bem-vinda
És tão graciosa e tão miúda
Tu és a dama mais tesuda
Aqui deste covil

Ai, quem me dera ser Gardel
Tenor e bacharel
Francês e rouxinol
Doutor em champinhon
Garçom em Salvador
E locutor de futebol
Pra te dizer febril
Bem-vinda
Tua beleza é quase um crime
Tu és a bunda mais sublime
Aqui deste covil



chico buarque de holanda



pindaro

Bilhetando Hilária no sentido de fazer pensar


















A serra é alta, fria e nevosa;
vi venir serrana gentil, graciosa.

Vi venir serrana, gentil, graciosa;
cheguei-me per’ela com grã cortesia.

Cheguei-me per’ela de grã cortesia,
disse-lhe: senhora, quereis companhia?

Disse-lhe: senhora, quereis companhia?
Disse-me: escudeiro, segui vossa via.


Gil Vicente



pindaro

Para siempre





















Alguíen dijo una vez que en el momento en que te paras a pensar si quires a alguíen, ya as dejado de quererle para siempre.


Carlos Ruiz Zafón




pindaro

Fico ao teu lado




As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.


Cecília Meireles



píndaro

A gravidade das leis























La volupté unique et suprême de l'amour gît dans la certitude de faire le mal. Et l'homme et la femme savent de naissance que dans le mal se trouve toute volupté.


Charles Baudelaire



pindaro

Afinidades fundas

























Il y a un signe infaillible auquel on reconnaît que l'on aime quelqu'un d'amour. C'est lorsque son visage nous inspire plus de désir physique qu'aucune autre partie de son corps.


Christian Bobin



Pindaro

As regras do discurso amoroso





É já dificil reconstruir gestos e sentimentos de uma personagem que certamente arde de amor verdadeiro, mas nunca se sabe se exprime o que sente ou o que as regras do discurso amoroso lhe prescreviam - mas por outro lado o que sabemos da diferença entre paixão sentida e paixão expressa, e qual é prioritária sobre a outra?


Umberto Eco



Pindaro