quinta-feira, julho 16, 2009

La cosa

























La alma es un princípio
o fuersa irrequieta
con que se mueve la cosa

Tales


pindaro

quarta-feira, julho 15, 2009

As coisas nos conjuram







As coisas não se submetem
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.

Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?

Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?

Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?

Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.

Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.

As coisas não se submetem
à nossa vestidura.


Carlos Nejar


pindaro

Som todas passadoiras





















As cousas deste mundo....
som todas passadoiras...


Livro de Buen Amor


pindaro

Amor sobre amor





















Questão é curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo? Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior.


Padre António Vieira


Doutor Lívio

Elegante y pudoroso disfraz
























La única manera de contar algo verdadero es bajo el elegante y pudoroso disfraz de una invención.

Javier Marías


pindaro

terça-feira, julho 14, 2009

El horizonte


























El horizonte es tu cuerpo,
el horizonte es mi alma.
Llego a tu fin: más arena.
Llegas a mi fin: más agua.

Juan Ramón Jiménez


pindaro

Si no es el mar




Si no es el mar, sí es su imagen,
su estampa, vuelta, en el cielo.
Si no es el mar, sí es su voz
delgada,
a través del ancho mundo,
en altavoz, por los aires.
Si no es el mar, sí es su nombre
es un idioma sin labios,
sin pueblo,
sin más palabra que ésta:
mar.
Si no es el mar, sí es su idea
de fuego, insondable, limpia;
y yo,
ardiendo, ahogándome en ella.

Pedro Salinas


pindaro

segunda-feira, julho 13, 2009

Lentidão

























Tu vens todos os dias à noitinha
e despes-te com tanta lentidão
com tanta lentidão que se adivinha
a forma do teu próprio coração

E quando vais é já noite fechada
não sei se vou ficar se vou sair
não posso ter a alma sossegada
sem saber se amanhã tornas a vir


David Mourão Ferreira



pindaro

domingo, julho 12, 2009

O beijo da quilha























O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
de minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos.

Mia Couto


pindaro

Sonha-me tua






Sonha-me, meu ódio-amor,
Através do teu sonho volto à vida.
Passeia minha sombra e ilusão
Pelos mesmos caminhos, os antigos.
E sonha-me como se tornasses
No fulgor da carne
Tua primeira amante proibida

Sonha-me um novo sempre
Um rosto
Isento de crueldades e partidas.
Sonha-me tua.
Criança e esquecida da experiência humana
Hei de voltar à vida.


Hilda Hilst


pindaro

Uma deusa de água


















Um rumor irrompe das nocturnas
margens. Sombras deslumbrantes.
Um fulgor que desnuda e que despoja.
Campo de água ágil. Dança

Imóvel. Uma cegueira arde
Incendiando o tempo. Pátria
áspera de delicado alento.
Soberano marulhar do inexplorável.

Unânime é a pedra. Selvagem
a palavra despedaça a língua.
Um silêncio central domina e orienta
A substancia primária. A palavra inicia.

Rapidez da água entre resíduos
obscuros. Talvez o diadema.
Talvez a obscura dança aérea.
O leve poder do fogo, as suas marcas

ácidas. Pulsação
dos poros. Ardor do silêncio
no nocturno centro. Fulgor do desejo.
Uma deusa de água espraia-se nas palavras.

António Ramos Rosa


pindaro

sábado, julho 11, 2009

Coisas efémeras que duram uma vida




























Quels doux supplices
Quelles délices,
De brusler dans les flammes
De la beauté des Dammes.


Antoine Boesset

pindaro

Comprimentos e pontas






O passado não está morto. Na verdade, nem sequer é passado.
William Faulkner


pindaro

Be




















If you want to be happy, be.


Leo Tolstoy


pindaro

Les mots

























Les mots qui vont surgir savent de nous des choses que nous ignorons d’eux.

René Char


pindaro

sexta-feira, julho 10, 2009

Desprendimento























Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant'Anna


pindaro

Faz parte do próprio trabalho


























O esquecimento faz parte do próprio trabalho da memória.

Irene Pimentel


pindaro

Coisas de pensamento























As mulheres não querem saber o que pensas. Querem ouvir o que elas pensam numa voz mais grave.


Bill Cosby


pindaro

quinta-feira, julho 09, 2009

Marinharia

























La mer est un espace de rigueur et de liberté.

Victor Hugo


pindaro

Deve andar perto uma mulher

























São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão
Principalmente quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma musica qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua


Vinicius de Moraes


pindaro