segunda-feira, setembro 06, 2010

As praias desertas








As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar

Carlos Jobim

Pindaro

Arcadas do violoncelo


























Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
—: Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
— Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha



pindaro

domingo, setembro 05, 2010

Vem dormir comigo






Vem dormir comigo
e comigo
e todas as sereias.

Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas — e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.

Não partas!
Se partires
as velas de tua nau serão escassas
para enxugar-te as lágrimas — e nunca
nunca mais tocarás a pele das deusas
nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
e nunca mais serás um deus
e nunca mais a melodia de uma canção de amor
dos hinos do himeneu:
abelhas mortas para sempre irão morar
na pedra do jazigo de cera
de teus ouvidos cegos.

Mas vem
e vem dormir comigo
e comigo
e minhas irmãs todas
as sereias do mar
as sereias da terra
e as sereias dos céus.
Geraldo de Mello Mourão


Pindaro

sábado, setembro 04, 2010

Faites vos jeux
























Na vida, como no jogo, o primeiro prazer é ganhar, o segundo é perder.
J. Dantas

Pindaro

sexta-feira, setembro 03, 2010

Num nada de sal
























Um pouco de sol
Num nada de sal
Virgem na praia.
Azul seu raio a medo o olhar criou.
Tão redonda na onda arfa uma saia?
Foi ela ou o meu dizer que se afogou?

Vitorino Nemésio

pindaro

Pero no hay hoyes…







Hay ayeres
y mañanas,
pero no hay hoyes…
Mario Benedetti

pindaro

quinta-feira, setembro 02, 2010

O tempo é a maré que leva e traz























O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

Ruy Belo


Pindaro

quarta-feira, setembro 01, 2010

Le ciel est bleu la mer est verte






















Le ciel est bleu la mer est verte
Laisse un peu la f'nêtre ouverte

Le flot qui roule à l'horizon
Me fait penser à un garçon
Qui ne croyait ni Dieu ni diable
Je l'ai rencontré vers le nord
Un soir d'escale sur un port
Dans un bastringue abominable
L'air sentait la sueur et l'alcool
Il ne portait pas de faux col
Mais un douteux foulard de soie
En entrant je n'ai vu que lui
Et mon c?ur en fut ébloui
De joie

Le ciel est bleu la mer est verte
Laisse un peu la f'nêtre ouverte

Il me prit la main sans un mot
Il m'entraîna hors du bistro
Tout simplement d'un geste tendre
Ce n'était pas un compliqué
Il demeurait au bord du quai
Je n'ai pas cherché à comprendre
Sa chambre donnait sur le port
Des marins saouls chantaient dehors
Un bec de gaz un halo blême
Éclairait le triste réduit
Il m'écrasait tout contre lui
Je t'aime

Le ciel est bleu la mer est verte
Laisse un peu la f'nêtre ouverte

Son baiser me brûle toujours
Est ce là ce qu'on dit l'amour
Son bateau mouillait dans la rade
Chassant les ombres de la nuit
Au jour naissant il s'est enfui
Pour rejoindre ses camarades
Je l'ai vu monter sur le pont
Et si je ne sais pas son nom
Je connais celui du navire
Un navire qui s'est perdu
Quant au marin je ne l'ose plus
Rien dire

Le ciel est bas la mer est grise
Ferme la f'nêtre à la brise


Edith Piaf

pindaro

terça-feira, agosto 31, 2010

The first of all pleasures


























Illusion is the first of all pleasures
Oscar Wilde

pindaro

Je te l'ai dit




























Je te l'ai dit pour les nuages
Je te l'ai dit pour l'arbre de la mer
Pour chaque vague pour les oiseaux dans les feuilles

Pour les cailloux du bruit
Pour les mains familières
Pour l'oeil qui devient visage ou paysage
Et le sommeil lui rend le ciel de sa couleur
Pour toute la nuit bue
Pour la grile des routes
Pour la fenêtre ouverte pour un front découvert
Je te l'ai dit pour tes pensées pour tes paroles
Toute caresse toute confiance se survivent

Paul Éluard

pindaro

segunda-feira, agosto 30, 2010

Vous savez ce qu'est le charme



























Vous savez ce qu'est le charme : une manière de s'entendre répondre oui sans avoir posé aucune question claire
Albert Camus

pindaro

Os códigos e os costumes



























É certo que os códigos são uma coisa e os costumes outra: verdade que se verifica sobretudo no domínio do sensual, onde, mais que em qualquer outro, o ser humano parece ter a faculdade de respirar à vontade numa zona semelhante à das grandes profundidades, bem abaixo da superfície mutável das ideias, das opiniões, dos preceitos, bem abaixo mesmo da camada onde a palavra ou a consciência se exprime.

Marguerite Yourcenar

pindaro

domingo, agosto 29, 2010

Todo pasa y todo queda






Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.




Antonio Machado

pindaro

sábado, agosto 28, 2010

Todo amor es fantasía




























Todo amor es fantasía;
él inventa el año, el día,
la hora y su melodía;
inventa el amante y, más,
la amada. No prueba nada,
contra el amor, que la amada
no haya existido jamás.


Antonio Machado

pindaro

sexta-feira, agosto 27, 2010

Furte-se aos ocasos para não rebentar de desdouros







Não esperar até ser sol poente. É máxima do cordo deixar as coisas antes que elas o deixem. Que se saiba converter em triunfo o próprio fenecer, pois às vezes mesmo o sol, ainda brilhante, costuma retirar-se numa nuvem para que não o vejamos cair, e nos deixa suspensos, não sabendo se ele se pôs ou não. Furte-se aos ocasos para não rebentar de desdouros; não espere que lhe voltem as costas, porque o sepultarão vivo para o sentimento e morto para a estima.

Baltasar Gracián y Morales


pindaro

Fado quer dizer destino






















Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão Ferreira

pindaro

Viagem imprevisível






A vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão ou os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem.
Stig Dagerman


pindaro

quinta-feira, agosto 26, 2010

Comprimentos e pontas





















É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se parar para pensar, na verdade não há.
Renato Russo

pindaro

Un immense baiser







L'océan resplendit sous sa vaste nuée.
L'onde, de son combat sans fin exténuée,
S'assoupit, et, laissant l'écueil se reposer,
Fait de toute la rive un immense baiser.


Victor Hugo

pindaro

Encadeamentos




























What's a goodbye without a kiss? And why stop at kissing?

solino