segunda-feira, dezembro 05, 2011

É o começo da escrita




























Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás, - é o começo da escrita.
Roland Barthes


pindaro

domingo, dezembro 04, 2011

Bajo el elegante y pudoroso disfraz de una invención.




























La única manera de contar algo verdadero es bajo el elegante y pudoroso disfraz de una invención.
Javier Marías


pindaro

sábado, dezembro 03, 2011

Hay que pedírsela



























A todas las mujeres hay que pedírsela, porque la que no te lo da, te lo agradece.
Porfirio Rubirosa

pindaro

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Deslizantes como segredos























Os prazeres dos amores são males que se fazem desejar. Deslizantes como segredos, a sua linguagem é a do fluxo das marés.

Coisas de naufrágios, portanto, onde se sentem bem os náufragos.

Um deles, Giovan Battista Marino, bem dizia:
Ahi, ch´altro non risponde, che il mormorar de l´onde!,

e uma outra, Ayn Rand, percebeu, nas luzes da noite, que ninguém consegue escapar à necessidade de uma filosofia e que a única variação é se sua filosofia é escolhida por si próprio ou pelo acaso...

Ressemantizadas as frases, do que se trata é de fingir de verdade, como uma luz de relâmpagos agrupados, sabendo que - outro náufrago, Scott Fitzgerald – toda a boa escrita é nadar debaixo de água com a respiração suspensa.

Afinal, quem mareou ao redor da ilha do dia antes, sabe que há pessoas que nunca se apaixonariam se não tivessem ouvido falar do amor...


Solino

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Desordenado e continuado desejo, ciúmes e vanglória fazem no coração grande sentimento

















Os amores no coração fazem mais rijo e continuado sentimento que outra benquerença, por estas razões:

Primeira, por a contrariedade do entender que os contradiz, mostrando de uma parte quanto mal por eles se faz, defendendo que se não faça, e doutra o desejo que muito com eles reina, requerendo com grande afincamento que persevere no que há começado, fazem uma porfia que continuadamente dá grã pena de espírito, afã e cuidado, do que mui amiúde os namorados se queixam, a qual se não pode passar sem rijos sentimentos.

Segunda, porque rijo, desordenado e continuado desejo, ciúmes e vanglória fazem no coração grande sentimento. E porquanto estes reinam mais com amores que com outra benquerença, porém fazem maior sentido.

Terceira, porque assim como dizem as cousas costumadas não fazerem tanto sentir, por esse fundamento aquelas que se abalam convém que o acrescentem.

E pois que os amores nunca dão repouso por fazerem contentar de mui pequeno bem, assim como de uma boa maneira de olhar, gracioso rir, ledo falar, amoroso e favorável jeito, e de tal contrário se assanham, tomam suspeita, caem em tristeza, filhando tão rijo cuidado por uma cousa de nada, como se tocasse a todo seu bom estado, que o não deixa enquanto dura pensar em al livremente, mas como aquele que tem véu posto ante os olhos vê as cousas, dessa guisa ele pensa em todas outras fora do seu fundamento por cima daquele cuidado que lhe faz parecer todas as folganças nada, não havendo aquela que mais deseja.

E se a cobrasse, que tristeza nunca sentiria, o que é tão errado pensamento como bem demonstram muitos exemplos, os quais não quer consentir que se creiam, posto que claramente de demonstrem, pensando que nunca semelhante como ele sentiu que o contrário pudesse sentir, o que adiante as mais das vezes se demonstra mui desvairado do que parece.

E por aqui se pode bem conhecer, posto que não caia em outro erro, quanto perigo é trazer um tal cuidado assim reinante em ele, que o não deixe pensar em cousa livremente sem haver dele lembramento, e como constrangido cuidar em qualquer outro feito por pesado que seja, para o coração no que tais amores lhe mandam quer embargar seu sentido, desamparando todos os outros por necessários que sejam.

E por estas razões convém que traga e faça maiores sentimentos que outra maneira de amar.


d. duarte
Leal Conselheiro


pindaro

quarta-feira, novembro 30, 2011

Uma terceira coisa




























Entre o viver e o sonhar
Há uma terceira coisa
Adivinha-a.

Antonio Machado

pindaro

A melhor parte da nossa memória



























As recordações em amor não constituem uma excepção às leis gerais da memória, também ela regida pelas leis do hábito. Como esta enfraquece tudo, o que mais nos faz lembrar uma pessoa é justamente aquilo que havíamos esquecido por ser insignificante e a que assim devolvemos toda a sua força.
A melhor parte da nossa memória está deste modo fora de nós. Está num ar de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, seja onde for que de nós mesmos encontemos aquilo que a nossa inteligência pusera de parte, a última reserva do passado, a melhor...

Marcel Proust

pindaro

Astúcias subtis dirigidas a Hilária, polpuda e licorosa




























Afreguesei-me para lhe captar a benevolência...
camilo castelo branco


pindaro

terça-feira, novembro 29, 2011

A arte de dizer adeus com elegância


“Son mis amores reales”
La devise de D. Juan de Tassis y Peralta, Conde de Villamediana
(“Chevalier de l´arène qui affronttait à pied les taureaux simplement pour qu´étincelle la devise que le mena à mort” – L.M. Dominguin)
















O duende, como todo o bom bailador da esquivança, tem pergaminhos difíceis.
O seu campo é um território de labirintos e galerias, para o correr vai-se melhor com explorador. Espanhol e poeta: Federico Garcia Lorca.

O duende, Lorca vai abrindo, é um poder não uma atitude, é uma luta não um conceito, e nenhuma emoção é possível sem a sua mediação.

“Olé! Isto tem duende!”, bradou o bailarino cigano La Malana ao ouvir Brailowski tocar um fragmento de Bach. Agarrara o “é da coisa”, como Goethe quando, falando de Paganini, falava de “um poder misterioso que todos podem sentir e nenhuma filosofia pode explicar.”

O duende fantasia nas interioridades escondidas e, no dizer do explorador, encontra-se “durmiendo en las últimas habitationes de la sangre”.

Ama as fronteiras e as feridas, e aproxima-se dos lugares onde as formas se fundem num anseio superior às suas expressões visíveis. Ser misterioso, meio diabólico meio angélico – os dois ao mesmo tempo – costuma inspirar os que nele crêem.

A sua funda vocação, acrescentaria Henri Thoreau, é a de “sugar o tutano do dia.”

Encanto da região do fogo, demónio furioso e devorador, irmão dos ventos carregados de areia, o duende baila com particular ligeireza por dentro dos cantadores ciganos, dos toureiros e dos poetas.

É ver João Cabral de Mello Neto:


(...)
Mas eu vi Manuel Rodriguez
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo
mais mineral e desperto,

(...)
o que à tragédia deu número,
à vertigem geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodriguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida.

E como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor
sem poetizar seu poema.”


“Sueño de una sombra /o sombra de un sueño”, dizia José Bergamin, mas o duende, digo eu, tem um outro dom que é o da impermanência, a arte de dizer adeus com elegância.


Doutor Lívio

O que é bonito neste mundo e anima



























O que é bonito neste mundo e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova

Miguel Torga

Pindaro

segunda-feira, novembro 28, 2011

Com que voz chorarei meu triste fado



























Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.


Baltazar Estaco (?)

(Luis de Camões ?)

pindaro

domingo, novembro 27, 2011

Neste recanto de consumação



















O que o acto amoroso e o sacrifício revelam é a carne... O movimento da carne excede um limite na ausência (ou, além) da vontade. A carne é em nós este excesso que se opõe às leis da decência. A carne é a expressão de um retorno desta liberdade ameaçante(...)O mundo íntimo opõe-se ao real como a desmesura à medida, a loucura à razão, a embriaguez à lucidez... o mundo do sujeito é a noite: esta noite movediça, infinitamente suspeita... a consumação do inútil suspende a preocupação com o dia seguinte. O que assegura o retorno da coisa, à ordem íntima, é sua entrada neste recanto de consumação. O sacrifício é o calor, onde se reencontra a intimidade daqueles que compõem o sistema das obras comuns. A vítima é um excesso pego, tomado à massa de riqueza útil.

Georges Bataille

Pindaro

sábado, novembro 26, 2011

E o tempo e o modo de o fazer






















Quando vemos uma sombra é porque há uma luz. A sombra é mistério, a luz claridade. A sombra encobre, a luz descobre. Saber o que se deve encobrir e o que se deve descobrir e o tempo e o modo de o fazer - isso é a arte.
Sternberg

pindaro

sexta-feira, novembro 25, 2011

Defumando os espíritos





















É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu.
John Milton

pindaro

Uma conversação de amigos bem acostumados

















Aqui ofereço a V. Excelência uma conversação de amigos bem acostumados, umas noites de Inverno melhor gastadas que as que se passam em outros exercícios prejudiciais à vida e consciência; finalmente uma Corte que, como bonina do mato, a que falta o cheiro e a brandura das dos jardins, ainda que na aparência e cores a queira contrafazer, é contudo diferente. Se os ditos destes aldeãos cheirarem a Corte, acreditarão o título do livro, e, se souberem ao monte, também nele se confessa por Corte da Aldeia.

Francisco Roíz Lobo

pindaro

quinta-feira, novembro 24, 2011

A zona necessária




























Até agora, nunca tinha amado as suas amantes, havia algo nele que o levava a tomá-las demasiado depressa para ter tempo de criar a aura, a zona necessária de mistério e desejo que lhe permitisse organizar mentalmente aquilo que poderia um dia chamar-se amor.
Julio Cortázar


pindaro

quarta-feira, novembro 23, 2011

Memorandum





























True is it that we have seen better days
William Shakespeare

pindaro

Os erros e a fortuna sobejaram




























Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís de Camões

píndaro

terça-feira, novembro 22, 2011

Mañana no ha llegado




















«¡Ah de la vida!»... ¿Nadie me responde?

¡Aquí de los antaños1 que he vivido!

La Fortuna mis tiempos ha mordido;

las Horas mi locura las esconde.

¡Que sin poder saber cómo ni adónde

la Salud y la Edad se hayan huido!

Falta la vida, asiste lo vivido,

y no hay calamidad que no me ronde.

Ayer se fue; Mañana no ha llegado;

Hoy se está yendo sin parar un punto:

soy un fue, y un será, y un es cansado.

En el Hoy y Mañana y Ayer, junto

pañales y mortaja, y he quedado

presentes sucesiones de difunto.


Francisco de Quevedo

pindaro

segunda-feira, novembro 21, 2011

Es el mundo de la perfección.





El mundo de la literatura, el mundo del arte, es el mundo de la perfección.
Es el mundo donde la belleza, que es lo que en última instancia le da su independencia, su verdad, su autenticidad, nos enfrenta a la acabado, a lo absolutamente abarcable con el conocimiento, con la conciencia además con una visón esférica que jamás llegamos a tener. Entonces, cuando nosotros regresamos de una gran novela, de ese mundo de ilusión, de ese espejismo, deslumbrante que es el de una ficción lograda que se nos impone como una verdad irresistible a este mundo nuestro, cuál es la reacción natural? El cotejo es inevitable. Y la conclusión de ese cotejo es el de que pequeño es este mundo comparado con ese mundo tan grande, tan rico del que acabamos de salir. Y que feo, mediocre y sórdido es este mundo comparado con ese mundo donde todo aprecia tan bello, incluso las peores aspectos de la condición humana, las manifestaciones más sombrías, tétricas, crueles de lo que es el hombre tenia un encanto que el escritor, el creador había conseguido impregnarle, que a nosotros nos lo hacia aceptable, incluso emocionante y por lo tanto bello.

Mario Vargas Llosa

pindaro