quarta-feira, outubro 24, 2007

Cacho de sílabas















... ele dizia-me que do mesmo modo que uma constelação de estrelas chega a formar uma figura de escorpião ou de aquário, também um cacho de sílabas procura formar uma palavra e a palavra procura afanosa palavras afins (amigas ou inimigas) até formar uma imagem. a imagem atravessa o mundo inteiro para dar um abraço reconciliado à sua imagem irmã, há muito perdida ou hostil. Assim nasce a metáfora...

Carlos Fuentes



pindaro

Fio de pesca




No azul nocturno da paisagem, a estranheza da água despida do seu vulto.
Cartas de amor, letra a letra, para o espirito do lugar, para o desassossego da saudade.
Apanhar amores perdidos, como se apanham os peixes.
Preciso é fio. De pesca.




D. Júlio

terça-feira, outubro 23, 2007

A conjura






Pour qu'un amour soit inoubliable, il faut que les hasards s'y rejoignent dès le premier instant.

Milan Kundera




Pindaro

However



A man said to the Universe: "Sir, I exist."
"However", replied the Universe, "the fact has not created in me a sense of obligation."

Stephen Crane



pindaro

The winner takes it all




Ninguém se serve da ambiguidade sem ser à sua própria custa.

Jean François Paul de Gondy
, Cardinal de Retz



pindaro

Um elo secreto




Há um elo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento.

Milan Kundera



pindaro

O brilho picante da obscuridade



Every sin is the result of collaboration

Stephen Crane



pindaro

Bicho instruído





Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.


Carlos Drummond de Andrade




pindaro

Muros castos




Muros castos e tristes
Cativos de si mesmos

Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.

Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.

Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca...


Hilda Hist



pindaro

E temos à vista o pecado mortal












Habituo-me a só pensar bem dos meus amigos, a confiar-lhe os meus segredos e o meu dinheiro; não tarda que me traiam. Se me revolto contra uma perfídia sou eu, sempre, a sofrer o castigo. Esforço-me por amar os homens em geral; faço-me cego aos seus erros e deixo, indulgente ao máximo, passar infâmias e calúnias: uma bela manhã acordo cúmplice. Se me afasto de uma sociedade que considero má, bem depressa sou atacado pelos demónios da solidão; e procurando amigos melhores, acho os piores.
Mesmo depois de vencer as paixões más e chegar, pela abstinência, a uma certa tranquilidade de espírito, sinto uma auto-satisfação que me eleva acima do próximo; e temos à vista o pecado mortal, a vaidade imediatamente castigada.
Como explicar que toda a aprendizagem de virtude dê origem a um novo vício?


August Strindberg





Pindaro

Esse peixe da infância











O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do as falto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo




pindaro

Santo e senha




What need I be so forward with him that calls not on me?
(Que precisão tenho eu de ir ao encontro de quem ainda não se lembrou de vir ter comigo?)

Shakespeare,

Henrique IV

(trd. de J. Benard da Costa)


pindaro

segunda-feira, outubro 22, 2007

Beyond the farthest line







« (...) e quando entrávamos no bar um homem, sempre o mesmo, voltava-se no banco alto e, trazendo o seu copo, vinha sentar-se connosco numa mesa.

E era difícil dizer de que tempo ele vinha; pois das personagens das histórias dum tempo antigo ele tinha a voz, o olhar e os gestos, mas não o destino nem a vida vivida.

Era mesmo como se ele tivesse rejeitado todo o destino, toda a vida vivida, como uma coisa alheia, exterior e falsa, e lhe bastasse aquele momento, aquele bar, aquela conversa, aquele copo.

Era como se ele tivesse querido guardar o seu ser à margem do vivido, por não haver na vida acto nenhum onde o ser pudesse ser cumprido e a existência concreta fosse apenas deturpação, falsificação, profanação.

E assim ele tinha resolvido usar a sua própria vida como não sendo dele, usá-la como os músicos da orquestra usavam os seus fatos alugados...

E o homem que se tinha vindo sentar junto de nós falava misturando as suas palavras com o tempo, com a noite, com o barulho do mar, com o respirar da brisa nas folhagens.

E das suas palavras nascia uma grande imagem que se ia abrindo e desdobrando em inumeráveis espaços.

A sua sensibilidade era tão perfeita que até na própria madeira da mesa a sua mão pousava com ternura.

Enquanto falava abria espantosamente os seus olhos, que eram azuis como o azul duma chama de álcool.

E o seu olhar era desmedido e impessoal como se para além de nós ele olhasse outra coisa.

Talvez:
A memória longínqua duma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos

E à medida que ia falando, a imagem que nascia das suas palavras ia-se tornando interior à alma daqueles que o escutavam, como um mito.

Ele era como um limite como um marco que dissesse: Daqui em diante o mar não é mais navegável.

No entanto ele não se confundia com um deus.

Nos deuses ser e existir estão unidos.

Nele a vida vivida nem sequer era serva do ser, nem sequer era o chão que o ser pisava, mas apenas acaso sem nexo, desencontro, acidente sem forma e sem verdade, acidente desprezado.

… esteve um longo tempo calado.

Depois debruçou-se sobre a mesa e disse:

There is a sea,
A far and distant sea
Beyond the farthest line,
Where all my ships that went astray
Where all my dreams of yesterday
Are mine.

(...) »


Sophia de Mello Breyner
("Contos Exemplares"- personagem inspirado em D. José Zarco da Câmara, Conde da Ribeira Grande)


pindaro

Movimento




La pensée d'un homme est avant tout sa nostalgie.
Albert Camus

pindaro

Toujours always
















Ha venido tu lengua; está en mi boca
como una fruta en la melancolía...


António Gamoneda




pindaro

The fume of sighs






Love is a smoke made with the fume of sighs.

William Shakespeare




pindaro

Oiço os passos do Outono







Vem aí a Primavera
diz-me sempre a tua boca
depois do mais que me dera
o que vem é coisa pouca

Olha o Verão que já não tarda
diz-me à tarde o teu peito
por mais frutos que ele traga
não há nenhum tão perfeito

Oiço os passos do Outono
dizem-me à noite os teus braços
o que mais ambiciono
é ouvir só os teus passos

O Inverno há-de chegar
diz-me à noite a tua mão
quanto mais a mão esfriar
mais calor no coração

E dia a dia por nós
passam as quatro estações
têm sempre a tua voz
eu respondo-lhes depois

David Mourão-Ferreira



pindaro

No breve espaço






O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.


Carlos Drummond de Andrade




pindaro

Omnia legentes, quae bona sunt tenentes




A humildade é o princípio do aprendizado, e sobre ela, muita coisa tendo sido escrita, as três seguintes, de modo principal, dizem respeito ao estudante.

A primeira é que não tenha como vil nenhuma ciência e nenhuma escritura.

A segunda é que não se envergonhe de aprender de ninguém.

A terceira é que, quando tiver alcançado a ciência, não despreze aos demais.

Muitos se enganaram por quererem parecer sábios antes do tempo, pois com isto envergonharam-se de aprender dos demais o que ignoravam.

Tu, porém meu filho, aprende de todos de boa vontade aquilo que desconheces.

Serás mais sábio do que todos, se quiseres aprender de todos.

Nenhuma ciência, portanto, tenhas como vil, porque toda ciência é boa. Nenhuma Escritura, ou pelo menos, nenhuma Lei desprezes, se estiver à disposição.

Se nada lucrares, também nada terás perdido.

Diz, de facto, o Apóstolo: “Omnia legentes, quae bona sunt tenentes”

O bom estudante deve ser humilde e manso, inteiramente alheio aos cuidados do mundo e às tentações dos prazeres, e solícito em aprender de boa vontade de todos.

Nunca presuma de sua ciência; não queira parecer douto, mas sê-lo; busque os ditos dos sábios, e procure ardentemente ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente, como um espelho.


Hugo de São Vítor




pindaro

E esquecer não pesa





...de sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.
Bernardo Soares




pindaro