quarta-feira, janeiro 05, 2011

Uma cidade de navegar




(…) para mim, panorâmicas e vistas gerais são quase sempre frases feitas ou cenários de catálogo. Claro que ver-te daqui,(...), é deslumbrante, não digo que não. Mas há a distância, e a distância inventa cidades, como bem sabemos (...)





















Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa dos ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para o oceano. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos. (...)

José Cardoso Pires


pindaro

1 comentário:

Amélia disse...

O Lisboa, livro de bordo, de que penso ser este excerto, é um livro de amor por uma cidade de que quase se beijam as pedras da calçada.Gosto muito do Cardoso Pires, que escrevia um português escorreito...nas crónicas, como nos romances