quinta-feira, agosto 20, 2009

En tout sens























Les jambes des femmes sont des compas qui arpentent le globe terrestre en tout sens, lui donnant son équilibre et son harmonie.


François Truffaut


pindaro

O meu tempo lunar






Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.


Hilda Hilst


pindaro

quarta-feira, agosto 19, 2009

O azul intenso da sua origem

























Debruçamo-nos da janela e o mar existiu logo na transcendência de nós, no sem-fim espraiado e todavia apaziguado da sua inquietação. Víamo-lo em baixo, aberto de toalhas rendadas de espuma para o invisível da graça que devia sorrir em nós. E havia o azul intenso da sua origem. E havia em nós o silêncio para tudo poder falar.

Vergílio Ferreira


pindaro

El misterio






Todas las cosas tienen su misterio, y la poesía es el misterio que tienen todas las cosas.


Federico García Lorca



pindaro

Dos palabras




















Poesía es la unión de dos palabras que uno nunca supuso que pudieran juntarse, y que forman algo así como un misterio.


Federico Garcia Lorca


pindaro

Mar





















El mar es el Lucifer del azul. El cielo caído por querer ser la luz.
Pobre mar condenado a eterno movimiento habiendo antes estado quieto en el firmamento! Pero de tu amargura te redimió el amor.
Pariste a Venus pura, y quedóse tu hondura virgen y sin dolor.
Tus tristezas son bellas, mar de espasmos gloriosos.
Mas hoy en vez de estrellas tienes pulpos verdosos.
Aguanta tu sufrir, formidable Satán.
Cristo anduvo por ti, mas también lo hizo Pan.
La estrella Venus es la armonía del mundo. Calle el Eclesiastés!
Venus es lo profundo del alma...
Y el hombre miserable es un ángel caído.
La tierra es el probable paraíso perdido.


Frederico Garcia Lorca


pindaro

I get a glimpse of her





















My dream concept is that I have a camera and I am trying to photograph what is essentially invisible. And every once in a while I get a glimpse of her and I grab that picture.

Leonard Nimoy

pindaro

À flor da pele

























O mundo apanha-te tal como te dás a ele.
Nietzsche


pindaro

terça-feira, agosto 18, 2009

O limão na ostra

























Na vida, os factos são o limão na ostra.


Clarice Lispector



pindaro

Lusco-fusco
























Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco de consciência, nunca certos com o que somos ou com o que supomos ser (...) Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo.


Bernardo Soares


pindaro

Fazendo a indiferença
























Viverás a mais bela das vidas se fores indiferente às coisas indiferentes


Marco Aurélio



pindaro

La confusa respuesta






















Nuestra vida es la confusa respuesta a preguntas que hemos olvidado dónde fueron planteadas
.

Peter Sloterdijk


pindaro

A zona necessária de mistério


























Até agora, nunca tinha amado as suas amantes, havia algo nele que o levava a tomá-las demasiado depressa para ter tempo de criar a aura, a zona necessária de mistério e desejo que lhe permitisse organizar mentalmente aquilo que poderia um dia chamar-se amor.

Julio Cortázar

pindaro

Uma qualidade psíquica
























A fotografia é uma imagem física, com a riqueza duma qualidade psíquica.

Edgar Morin

pindaro

A gravidade das leis






É aqui a roda

é aqui que temos de bailar


W. Shakespeare


pindaro

segunda-feira, agosto 17, 2009

Invisible
























A photograph is always invisible, it is not it that we see.


Roland Barthes


pindaro

Reina de los besos



















Ven, reina de los besos, flor de orgía
amante sin amores, sonrisa loca...
Ven, que yo sé la pena de tu alegría
y el rezo de amargura que hay en tu boca.

Yo no te ofrezco amores que tú no quieres;
conozco tu secreto, virgen impura:
amor es enemigo de los placeres
en que los dos ahogamos nuestra amargura.

Amarnos...¡Ya no es tiempo de que me ames!
A ti y a mí nos llevan olas sin leyes.
¡Somos a un mismo tiempo santos e infames,
somos a un mismo tiempo pobres y reyes!

Manuel Machado


pindaro

Vierão a cair no peccado
























Effa eh a maior tentação porque he mais occulta. Joga o demonio com vofco, com hum menino com hum paffarinho prezo por huma linha: que o deyxa a voar hum pouco, & logo torna a puxar pela linha. Tenho conhecido almas que eftiveram annos fem cair, porque tinhão outros muitos exercicios de virtude, comque fe defender: & comtudo vierão a cair no peccado.


Manuel Bernardes


pindaro

While within the narrative



















A narrative is like a room on whose walls a number of false doors have been painted; while within the narrative, we have many apparent choices of exit, but when the author leads us to one particular door, we know it is the right one because it opens.

John Updike


pindaro

Sombra
























Não podes ver o que és. O que vês é a tua sombra.

Rabindranath Tagore


pindaro

domingo, agosto 16, 2009

Sin culpa
























Aunque recela no teme
El coraçón qu´es sin culpa,
Pues la verdad lo desculpa.


Pedro Luys Sanz


Pindaro

Os farpões de amor insano
























Quem de meus versos a lição procura,
Os farpões nunca viu de Amor insano,
Nem sabe quanto custa um vil engano
Traçado pela mão da formosura.

Pedro Garção


pindaro

La précision des équivoques









La précision des équivoques est l'un des charmes du style.

Roger Judrin

pindaro

Em segredo


















É o escândalo público que faz a ofensa, pecar em segredo não é sequer pecar.

Voltaire


pindaro

sábado, agosto 15, 2009

Um longo polimento

























A carícia é o produto de um longo polimento da bestialidade.

Pierre Reverdy


pindaro

Labirinto






















Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.


David Mourão Ferreira


pindaro

Bilhetando a polpuda e licorosa Hilária, salgada pelo sal do Sul


























Ici-bas les lèvres effleurent
Sans rien laisser de leur velours;
Je rêve aux baisers qui demeurent
Toujours...


Sully Prud'homme

Pindaro

sexta-feira, agosto 14, 2009

Como um cravo nocturno































Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.


Pablo Neruda


Pindaro

O campo do possível






















Para epígrafe do poema Le Cimitière Marin, Paul Valéry recorreu a estes versos do poeta grego Píndaro:


"Oh minha alma, não aspires à vida imortal, mas esgota o campo do possível."



pindaro

Encobrimentos distintos

























Qualquer um sabe proferir palavras enganadoras;
as mentiras do corpo exigem outra ciência.


François Mauriac



pindaro

Comprimentos e pontas






La superstition est l'art de se mettre en règle avec les coïncidences.


Jean Cocteau


pindaro

Bêbeme
























Mi cuerpo está impregnado del aroma
de lo pastos
maduros. Mi cabello sombroso
Esparce, al destrenzarlo,
olor a sol y a heno. [...] Cierva y can, astro y flor
Agua viva que glisa a tus pies.
Fluí
para ti. Bêbeme.
El cristal
Envidia lo claro de mi manantial.


Juana de Ibarbourou


pindaro

Toujours always
























L'érotisme, c'est quand l'imagination fait l'amour avec le corps.

Emmanuel Boundzéki Dongala


pindaro

De golpe



























Por qué se me vendrá todo el amor de golpe cuando me siento triste, y te siento lejana...


Pablo Neruda

pindaro

Raison d'être

























Everything is a subject. Every subject has a rhythm. To feel it is the raison d'être. The photograph is a fixed moment of such a raison d'être,which lives on in itself.


Andre Kertesz


pindaro

A ponta seca do único beijo







Um poema a encher-se de água
Uma mulher atravessando-o a nadar
Julgando-o um lago,
As palavras servem para tão pouco,
A água arrastou-as
Frágeis como a ponta seca do único beijo,
Purificando o amor de uma nadadora.


Lawrence Durrel


pindaro

quinta-feira, agosto 13, 2009

Frente ao objecto atlântico






Vais avançar. Vais andar como costumas quando estás só e pensas que alguém está olhar para ti, Deus ou eu, ou este cão ao longo do mar, ou esta gaivota trágica face ao vento, tão só frente ao objecto atlântico.

Marguerite Duras



pindaro

Se presientem
























Se miran, se presienten, se desean,
se acarician, se besan, se desnudan,
se respiran, se acuestan, se olfatean,
se penetran, se chupan, se demudan,
se adormecen, despiertan, se iluminan,
se codician, se palpan, se fascinan,
se mastican, se gustan, se babean,
se confunden, se acoplan, se disgregan,
se aletargan, fallecen, se reintegran,
se distienden, se enarcan, se menean,
se retuercen, se estiran, se caldean,
se estrangunlan, se aprietan, se estremecen,
se tantean, se juntan, desfallecen,
se repelen, se enervan, se apetecen,
se acometen, se enlazan, se entrechocan,
se agazapan, se apresan, se dislocan,
se perforan, se incrustan, se acribillan,
se remachan, se injertan, se atornillan,
se desmayan, reviven, resplandecen,
se contemplan, se inflaman, se enloquecen,
se derriten, se sueldan, se calcinan,
se desgarran, se muerden, se asesinan,
resucitan, se buscan, se refriegan,
se rehúyen, se evaden y se entregan.

Oliverio Girondo



pindaro

Amor desnudo








Amor impostergable y amor impuesto.
Amor incandescente y amor incauto.
Amor indeformable. Amor desnudo.
Amor-amor que es, simplemente, amor.
Amor y amor... ¡y nada más que amor!

Oliverio Girondo


pindaro

Coisas efémeras que nunca acabam

























As mulheres não são pacientes com o amor. São pacientes com tudo e de tudo fazem hábitos. Do amor é que não. daí que muitas delas deixem de ser honestas e se entreguem a uma forma de criação que é principiar do nada coisas efémeras que nunca acabam. Chama-se a isto Quinta-Essência, a região do fogo e do amor.
(...)
Há, nesse círculo da quinta-essência, uma atracção tão arrebatada que ela serve de linguagem entre gente completamente estranha na raça e nos costumes. Um deleite, que não é dos sentidos mas superior nos seus efeitos...

Agustina Bessa Luís


pindaro

Me vêm fomes



















Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, em adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

Hilda Hilst


pindaro

quarta-feira, agosto 12, 2009

Um jogo de forças

























A beleza começou por ser uma explicação que a sexualidade deu a si-própria de preferências provavelmentente de origem magnética. Tudo é um jogo de forças...

Fernando Pessoa



pindaro

A intercomunicação lúbrica





















Nestes casos, a intercomunicação lúbrica é tão natural como a do calor ou da electricidade. Não é que tudo no mundo é molecular? Um sexto sentido, particularmente apreensor nas mulheres, as avisa de quem as cobiça. Compreende-se que, ordenadas como receptáculo, seja mais desenvolvida nelas a faculdade de detecção. O homem pode ser amado e não fazer reparo. Quando se ama uma mulher e se está em contacto com ela, pode partir-se do princípio que está ciente. Qualquer declaração de amor é redundância.

Aquilino Ribeiro

pindaro

Dime por favor





















Dime por favor donde estás,
en que rincón puedo no verte,
dónde puedo dormir sin recordarte
y dónde recordar sin que me duela.
Dime por favor dónde pueda caminar
sin ver tus huellas,
dónde puedo correr sin recordarte
y dónde descansar con mi tristeza.
Dime por favor cuál es el cielo
que no tiene el calor de tu mirada
y cuál es el sol que tiene luz tan sólo
y no la sensación de que me llamas.
Dime por favor cuál es el rincón
en el que no dejaste tu presencia.
Dime por favor cual es el hueco de mi almohada
que no tiene escondidos tus recuerdos.
Dime por favor cuál es la noche
en que no vendrás para velar mis sueños…
Que no puedo vivir porque te extraño
y no puedo morir porque te quiero.


Jorge Luis Borges



pindaro

O ópido de Santarém




«(...) a umas cinquenta milhas da cidade (de Lisboa) , subindo o rio, fica o ópido de Santarém, de grande antiguidade e muito famoso de entre diversos outros ópidos da Lusitânia. A seu respeito, Plínio testemunha que foi a quinta colónia lusitana e que outrora lhe deram o nome de Praesidium Julium. A nossa gente chama-lhe hoje Santarém. A seu respeito os interessados pelas coisas antigas encontrarão muitos dados no nosso Resende.

Porque está localizado no cimo de um monte muito alto, lança o olhar ao longe e ao largo por uma extensa planície, que é dividida ao meio pelo Tejo e cuja terra apresenta extrema fertilidade, pois leva vantagem a todas as outras, por tal modo que escassos trabalhos agrícolas asseguram todos os anos, em vales reduzidos, inacreditáveis quantidades de trigo; a tamanha fertilidade do solo não ficará mal associar um dado, embora dizê-lo a muitos possa parecer difícil de acreditar: é que sessenta dias após ter sido começada a sementeira os cereais num curto período de tempo ficam grados, ceifam-se bem maduros, malham-se e, se for caso disso, moem-se.»


Damião de Goes


pindaro

La mer
























la mer, la mer, toujours recommencée!

Paul Valéry


pindaro

terça-feira, agosto 11, 2009

Uma sentida verónica



“Son mis amores reales”

La devise de D. Juan de Tassis y Peralta, Conde de Villamediana
(“Chevalier de l´arène qui affronttait à pied les taureaux simplement pour qu´étincelle la devise que le mena à mort” – L.M. Dominguin)


















O duende, como todo o bom bailador da esquivança, tem pergaminhos difíceis.
O seu campo é um território de labirintos e galerias, para o correr vai-se melhor com explorador. Espanhol e poeta: Federico Garcia Lorca.

O duende, Lorca vai abrindo, é um poder não uma atitude, é uma luta não um conceito, e nenhuma emoção é possível sem a sua mediação.

“Olé! Isto tem duende!”, bradou o bailarino cigano La Malana ao ouvir Brailowski tocar um fragmento de Bach. Agarrara o “é da coisa”, como Goethe quando, falando de Paganini, falava de “um poder misterioso que todos podem sentir e nenhuma filosofia pode explicar.”

O duende fantasia nas interioridades escondidas e, no dizer do explorador, encontra-se “durmiendo en las últimas habitationes de la sangre”.

Ama as fronteiras e as feridas, e aproxima-se dos lugares onde as formas se fundem num anseio superior às suas expressões visíveis. Ser misterioso, meio diabólico meio angélico – os dois ao mesmo tempo – costuma inspirar os que nele crêem.

A sua funda vocação, acrescentaria Henri Thoreau, é a de “sugar o tutano do dia.”

Encanto da região do fogo, demónio furioso e devorador, irmão dos ventos carregados de areia, o duende baila com particular ligeireza por dentro dos cantadores ciganos, dos toureiros e dos poetas.

É ver João Cabral de Mello Neto:

“
(...)
Mas eu vi Manuel Rodriguez
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo
mais mineral e desperto,

(...)
o que à tragédia deu número,
à vertigem geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodriguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida.

E como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor
sem poetizar seu poema.”

“Sueño de una sombra /o sombra de un sueño”, dizia José Bergamin, mas o duende, digo eu, tem um outro dom que é o da impermanência, a arte de dizer adeus com elegância.


Doutor Lívio

La rosa de los vientos






Océano que te abres lo mismo que una mano
A todos los viajeros y a todos los marinos:

Tan sólo para mí eres puño cerrado,
Para mí solamente tú no tienes caminos.

Jamás balanceará tu lomo milenario
La nave que me lleve desde esta tierra mía,
Ondulada y menuda, a las tierras que sueña
Mi juventud inmóvil y mi melancolía.

¡Ah! océano Atlántico multicolor y ancho
Cual un cielo caído entre el hueco de un mar:
Te miro como un fruto que no he de morder nunca
O como un campo rico que nunca he de espigar.

¡Ah! océano Atlántico, fiel leopardo que lames
Mis dos pies que encadenan el amor y la vida:
Haz que un día se sacien sobre tu flanco elástico
Esta ansiedad constante y este afán de partida.


Juana de Ibarbourou


pindaro

Da prática e da escritura





















-Bravamente é apaixonado o senhor D. Júlio (acudiu o Doutor) pelas cousas da nossa Pátria, e tem razão, que é dívida que os nobres devem pagar com maior pontualidade à terra que os criou. E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e da escritura.

Para falar é engraçada com um todo senhoril, para cantar é suave com um certo movimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias.

A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência de gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala.
Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé da sua antiguidade.

E se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem os seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.

(...)

Francisco Roíz Lobo

"Corte na Aldeia"


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