quinta-feira, abril 06, 2006

Vejo-te em cidade-nave

" (…) Mas há a distância, e a distância inventa cidades, como bem sabemos (...) "



"Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade a navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa dos ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para o oceano. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos. (...) "

José Cardoso Pires


pindaro

terça-feira, abril 04, 2006

Amanhã é outro dia


Não sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ser uma madrugada.
Mas, se ele é um poente, como é que ele havia de ser
uma madrugada?


Alberto Caeiro


pindaro

segunda-feira, abril 03, 2006

Imemorial

"Dos beijos ao banquete apaixonado em sonhos o amor levou-me um dia."
ascenso ferreira


Imemorial
o desejo
da pedra
despida

Impúdica
a carne
da intima
bebida

Devasso
o empenho
da boca
desenhada

Indecente
a rosa
cor-de-rosa
avermelhada



Solino

Debruada de mar







(...) Hoje
sei apenas gostar

duma nesga de terra
debruada de mar.



Miguel Torga



pindaro

Tu já tinhas um nome




Tu já tinhas um nome, e eu não sei

se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.

Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

pindaro

domingo, abril 02, 2006

O instinto é suficiente

Na arte, como no amor, o instinto é suficiente e a ciência oferece, apenas, uma inoportuna claridade.

anatole france


pindaro

impromptus


Let every artist
Strive to make his flower
A beautiful living thing
Something that will convince
The world that there may be
There are things more precious
More beautiful more lasting than life



Chas Mackintosh



pindaro

Em carícias de água


Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

Vinicius de Moraes

pindaro

sexta-feira, março 31, 2006

Tanto pior para ele


Os homens mais novos não entendem o... como é que vocês dizem?... o erotismo.

Até aos quarenta, caímos sempre no mesmo erro, não sabemos libertar-nos do amor:

um homem que, em vez de pensar numa mulher como complemento de um sexo, pensa no sexo como complemento de uma mulher, está pronto para o amor:

tanto pior para ele.




André Malraux
A Estrada Real



pindaro

Cravação fechada



“A esmeralda é uma pedra frágil que se quebra com facilidade, como a fé”
Catarina de Médicis










A regra só pode ser esta:
os lapidários lapidarão e os ourives engastarão.

E elas, as de cabelo asa de corvo e olhos pretos, usem, de primazia, na cercadura dos brincos a prata branca.

Com vistas para o realce.

Ponham, por cima, camisa aberta e cor de canela, que entraves raianos não molham beijos,

sabendo que reais são os méis e adulações no estreito das embocaduras, maiormente da do fremente limo voraz.

E, por cima de tudo, a destapar as pernas quase todas, que a seda preta, ávida de regard, mostre a sua solidão furtiva entre a saia e a carne nua.

Marcando territórios, os lobos florescem.



Doutor Lívio

quinta-feira, março 30, 2006

Nas durezas dos amores


“Como o que ao deixar a ilha inaudita
se exalta com o sonho que se propôs
na pérola ardente que o imita.”

Carles Riba
(Salvatge cor)






Encontrava-se na situação daquele pescador de não sei que lenda árabe que, ao tentar afogar-se no meio do oceano, chega a um país submarino onde o fazem rei.

Tudo começa pela parte da ligação entre a noite e a sensualidade, e continua por aí fora nas histórias de correr fado até chegar à água, a da nossa memória, e a outra, a do mar.

A irmandade com o oceano é o sal que no-la dá.

A sua percentagem nele e em nós é a mesma, e que incessantemente assim tenha sido e que assim continuamente venha a ser é o salvo-conduto, o farol das fugidas dos ameaços de quem se governa como pode nas durezas dos amores.




Doutor Lívio

Manifestação de uma lonjura


" O vestígio é a manifestação de uma proximidade, por mais longe que possa estar o ser que o deixou.
A aura é a manifestação de uma lonjura, por mais próximo que possa estar aquilo que a evoca.
Com o vestígio apoderamo-nos da coisa, com a aura é ela que é senhora de nós."


walter benjamin


pindaro

quarta-feira, março 29, 2006

Devido a quem de mim tenho ausente




Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixouo
tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.




luis vaz de camões

pindaro

segunda-feira, março 27, 2006

Legenda


“Do latim medieval legenda, o que deve ser lido.
Representação de factos ou personagens ampliadas pela imaginação.
Todo o texto que acompanha uma imagem e lhe dá sentido.”

Dic. Le Robert



Brassaí conta que um ser muito jovem e belo, por quem um grande nome das letras francesas se apaixonara, lhe dera uma fotografia nas costas da qual tinha escrito estas palavras:

Look at my face; my name is
Might have been;
I am also called
No more, Too late, Farwell.

Na nudez do “Might have been” atravessam, ao mesmo tempo, a ausência e o excesso de sentido, levadas em dois sopros no mesmo vento.

Nesse canto elegíaco de desnudamento, perpassa, macio, o refrulho de Giulia Sissa: a alma é um corpo de mulher...

Naquela privação, voraz como um vinho que se entorna, só o tempo lambe o golpe, o tempo entrevisto por Yeats, pois com o tempo a sabedoria:


Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.


Depois, fabricantes de simulacros, como animais marcaríamos em cada dia um novo território no mapa da rosa-dos-ventos, debruado de sabores ásperos e avivado de azul.




Doutor Lívio

Segunda-feira

“O eu foge-me sempre e é ele, no entanto, que, ao fugir da minha pessoa, a desenha e a imprime”
P. Valéry

“O que é o amor? O amor é assim:

Hoje beija-se, amanhã não se beija,
Depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será…”



C Drummond de Andrade


píndaro

sexta-feira, março 24, 2006

Os que trabalham no mar


Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
Sophia de Mello Breyner Andresen




















O Pescador, o Marinheiro Real e o Pirata

"As metáforas do Pescador e do Marinheiro Real e a alegoria do Pirata sintetizam a coadunação dos que trabalham no mar com a excelência do Reino e a sua relação profunda com esse mesmo Reino. O Pescador (p. 33), tem uma relação de fraternidade com “as coisas”, supera as emoções, tem o que Sophia designa ao longo da sua obra poética como “inteireza do ser” (11), integra o mar e o céu na sua realidade ontológica, mantém a sua atenção e abertura ao mundo com “serena lucidez”, o saber a um tempo experimentado e distanciado, próximo da sabedoria.

O Marinheiro Real (p.29) é o verdadeiro marinheiro da realidade do mar que se opõe, na poesia de Sophia, ao atrás referido Marinheiro sem mar, in Mar Novo, que se “afastou do que era eterno”, “porque o mar secou”, “porque o destino apagou o seu nome dos astros” e caminha “nas obscuras ruas da cidade sem piedade” (12). O Marinheiro Real vive em paz, integra-se no ritmo do cosmos, cultiva essa mesma “inteireza”, atinge a perfeição, desconhece a cidade – “as ruas”:

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
Marinheiro Real, p. 29

O Pirata (p.25) conjuga o gosto de estar só no seu barco com o gosto de se identificar com os mastros, de “uivar” com eles, de ser livre, na brisa, de integrar a suavidade do regresso. Não se identifica nem admira o mar, mas, como o herói bélico que mede as suas forças e cultiva o auto-domínio e o controlo das emoções e sentimentos profundos, o pirata exprime a sua força de auto-domínio sobre os perigos de estar sozinho no barco (13) , através do que chama “desprezo sobre o mar”. Tenta neutralizar a ideia de monstro identificável com o desconhecido ou o inimigo potencial que o poderá inesperadamente surpreender nas viagens (14), nas metáforas dos “monstros que não falam” (tigres e ursos) que amarrou aos remos e que à partida não o paralisam e ele sabe dominar . O Pirata é a alegoria do homem intrépido, viajante solitário, que à partida vence tudo o que é impeditivo ou destrutivo, como que uma aspiração ou realidade de todo o ser humano que nasce, percorre solitário a vida. O que apenas tenta definir na sua errância, com a maior beleza e dignidade, é a sua ligação ao vento, às flores e às aves, identificadas respectivamente com a pátria, a amada e o seu desejo, no final do poema, como um sonho/vigília permanente ... "


(HELENA CONCEIÇÃO LANGROUVA
In: Revista Brotéria, Lisboa, Maio-Junho e Julho de 2002)



pindaro

quinta-feira, março 23, 2006

La perfección


"El mundo de la literatura, el mundo del arte, es el mundo de la perfección.
Es el mundo donde la belleza, que es lo que en última instancia le da su independencia, su verdad, su autenticidad, nos enfrenta a la acabado, a lo absolutamente abarcable con el conocimiento, con la conciencia además con una visón esférica que jamás llegamos a tener. Entonces, cuando nosotros regresamos de una gran novela, de ese mundo de ilusión, de ese espejismo, deslumbrante que es el de una ficción lograda que se nos impone como una verdad irresistible a este mundo nuestro, cuál es la reacción natural? El cotejo es inevitable. Y la conclusión de ese cotejo es el de que pequeño es este mundo comparado con ese mundo tan grande, tan rico del que acabamos de salir. Y que feo, mediocre y sórdido es este mundo comparado con ese mundo donde todo aprecia tan bello, incluso las peores aspectos de la condición humana, las manifestaciones más sombrías, tétricas, crueles de lo que es el hombre tenia un encanto que el escritor, el creador había conseguido impregnarle, que a nosotros nos lo hacia aceptable, incluso emocionante y por lo tanto bello".

Mario Vargas Llosa
"Literatura y política: dos visiones del mundo", 11 de mayo del 2000.



pindaro

terça-feira, março 21, 2006

Coisas efémeras que nunca acabam


"Quels doux supplices
Quelles délices,
De brusler dans les flammes
De la beauté des Dammes"

Antoine Boesset



"As mulheres não são pacientes com o amor. São pacientes com tudo e de tudo fazem hábitos. Do amor é que não. daí que muitas delas deixem de ser honestas e se entreguem a uma forma de criação que é principiar do nada coisas efémeras que nunca acabam. Chama-se a isto Quinta-Essência, a região do fogo e do amor.
(...)
Há, nesse círculo da quinta-essência, uma atracção tão arrebatada que ela serve de linguagem entre gente completamente estranha na raça e nos costumes. Um deleite, que não é dos sentidos mas superior nos seus efeitos..."



Agustina Bessa Luís



pindaro

Nusquama (nenhures)


"Navegavam sem o mapa que faziam"
sophia de melo breyner





O deslumbramento e a nostalgia da errância vão discorrendo por entre as emboscadas das horas.

É voltar a soltar amarras, é voltar a peregrinar o sul dos encantos, que só o incessante rumor da distância nos redime.



Leonardo

quinta-feira, março 16, 2006

do Portugal antigo


VOZES DO MAR


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!



Florbela Espanca


pindaro