sexta-feira, julho 29, 2005

O brilho picante dos seus dentinhos

" Fui eu que lhe ofereci o prato, onde a Ernestina colocara os pastéis.

Ela quis saber o meu nome. Tinha um sobrinho que também chamava Teodorico; e isto foi como um fio sutil e forte que veio, do seu coração, enrodilhar-se no meu.

- Por que é que o cavalheiro não põe o guarda-chuva ali a um canto? - disse-me ela, rindo.

O brilho picante dos seus dentinhos miúdos fez desabrochar, dentro em mim, uma flor de madrigal.

- É para não me tirar daqui de ao pé da menina nem um instantinho que seja.

Ela fez-me uma cócega lenta no pescoço.

Eu, aboborado de gozo bebi o resto do Madeira que ela deixara no cálice.

A Ernestina, poética, e cantando o fado, aninhou-se nos joelhos do Rinchão.

Então a Adélia, revirando-se languidamente, puxou-me a face - e os meus lábios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido, mais profundo que até aí abalara o meu ser.

Nesse doce instante, um relógio medonho, com o mostrador fingindo uma face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o mármore de uma mesa de mogno, dentre dous vasos sem flores, começou a dar dez horas, fanhoso, irônico, pachorrento.

Jesus! Era a hora do chá em casa da Titi!

Com que terror eu trepei, esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as vielas escuras e infindáveis que levam ao Campo de Santana!

Em casa, nem tirei as botas enlameadas.

Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de balbuciei:

- Titi...

Mas já ela gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos:

- Relaxações em minha casa não admito! Quem quiser viver aqui há de estar às horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, enquanto eu for viva! E quem não lhe agradar, rua!"


Eça de Queirós



pindaro

1 comentário:

Amélia disse...

Gosto desta revisitação...e do blogue.